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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Se eu escrevesse seria assim #08

«Lost and insecure, you found me, you found me / Lying on the floor, surrounded, surrounded / Why'd you have to wait, where were you, where were you / Just a little late, you found me, you found me»

A 10 de Julho de 2010 gritaste isto ao mundo.

"I found you" - salientaste.

Eu fiz de conta que não ouvi. Não sabia o que responder. Não sabia o que te devia transmitir. Então calei. E guardei para sempre o segredo que não há vez que ouça esta música e não me lembre de ti.

"No way to know how long / She will be next to me" - lamento.
#5

sábado, 15 de agosto de 2015

Se eu escrevesse seria assim #07

"Tu aborreces-me J.", dizia-te tantas vezes que te deixava saudade sempre que não o ouvias. Dizia-to quando gozavas comigo, quando me olhavas o telemóvel sempre que escrevia mensagens, quando me colocavas a mão na perna que eu insistentemente tirava, quando simplesmente me apetecia. Porque se umas vezes me aborrecias de verdade outras tantas era só para te dizer em jeito de mentira que eu até que gostava de ti.

Mas nessa altura o meu gostar já não era o mesmo que o teu. Mas ninguém falava. Fingíamos estar tudo bem. Tudo de igual para igual. Pelo simples motivo de que nenhum dos dois queria perder o outro. Eu não queria perder as nossas conversas, as nossas piadas (tantas vezes privadas), não queria perder as confidências, o teu jeito parvo, o parceiro de carteira, o abraço sempre disponível e, sobretudo, os teus beijinhos na testa que em determinados dias, confesso, chegaram a ser os melhores do mundo.

Mas como manter, meu Deus, sentimentos diferentes por uma vida?
Porque eu queria, queria mesmo, que durássemos a vida inteira.
#4

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Se eu escrevesse seria assim #06

Peguei pela quinquagésima vez no teu telemóvel. Desta vez corri a lista telefónica e decidi que algo tinha de mudar.

[Eu decidia assim, só porque sim, numa fracção de segundos e tu nunca me contrariavas. Precisei tanto que o fizesses às vezes...]

Gravavas os teus contactos com o primeiro e último nome. Que coisa tão impessoal. Dizias que não, eu afirmava que sim. Voltavas a negar e eu peguei no telemóvel e mudei. Sorriste. Provavelmente também me chamaste de estúpida. Mas essencialmente sorriste, e deixaste-me...mais uma vez. Comecei pela Rita. Lembras-te? Falamos sobre ela. Quis saber tudo o que podia sobre vocês por perceber que havia ali um passado. Quis que as tuas atenções se voltassem para ela, pois já pressentia que era eu que me estava a tornar especial. E tive medo. Por mim, por ti e sobretudo por nós.

#3

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Se eu escrevesse seria assim #05

Gostava de um dia saber o que te levou a querer aproximar de mim, a conhecer-me. Não de um jeito meio tonto e superficial mas sim de um jeito mais sério, mais amigo. Foi a minha alegria? As parvoíces que eu dizia? Gostava tanto de vos ver rir. Do meu inglês fraquinho? Fazias sempre questão de legendar, mesmo quando nem era preciso. Da minha pronúncia? Que eu jurava não ter. Diz-me! Diz-me o que foi para que possa voltar a ser assim.

Lembro-me de ser mais feliz nesses dias do que ao fim-de-semana. Foi aí que eu percebi que a minha relação não estava bem. Quando ele dormia, dizia ele, era contigo que eu continuava a trocar mensagens. Quando a noite se fazia sentir mais pesada, refugiava-me num local onde o barulho deixasse de ser barulho e fosse apenas melodia e ficávamos assim, ao telefone. Não sei o que tanto tínhamos para falar mas na altura em que decidiste chegar não houve como não te deixar ficar. E se tivesse que existir um pedido de desculpa, talvez deveria ter sido aqui.
#2




quarta-feira, 1 de julho de 2015

Se eu escrevesse seria assim #04

Quando te conheci estava apaixonada. Duvido que te olhasse de maneira diferente se não estivesse mas, ainda assim, para mal dos meus pecados estava... mesmo apaixonada. Tínhamos um curso de gestão para partilhar mas no primeiro semestre mal te notei. Irónico, se olhar para o dia de hoje.

Não éramos bonitos. Éramos engraçados. Alegres e felizes?  Sim, acho que sim. Eras muito alto e, pelos teus olhos, passei a ser muito pequena. É esta a minha primeira lembrança mesmo tendo a certeza que para trás ainda houveram mais. A memória está turva. Parece que te conheço há uma vida e vai-se a ver, só passaram sete anos.

Não sei quando deixamos de estar em lados opostos da sala para passar a ficar em mesas paralelas. Mas sei que depois disso acontecer não houve reverso. Não sei como nem quando me deste o teu número de telefone mas sei que depois disso a única coisa que mudou, algumas vezes, foi a forma como o meu nome estava gravado. Não poderei portanto falar de primeiros gestos, primeiras palavras... daquilo que contadores de histórias revivem para decorar narrativas. Pois já só me lembro de quando já não dava para me afastar de ti.
#1

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Se eu escrevesse seria assim #03



As pessoas já não se cruzam. Não sei se é da geração, do destino ou má vontade mas sinto que anda tudo num eterno desencontro. Ou talvez seja apenas à minha volta, pobre de mim que também me desencontrei. De repente nada se passa, pisco os olhos e já se passou tudo. Talvez seja meu defeito, minha pressa e incapacidade de ver ao certo mas de tanto que vi acho que desaprendi de observar e lá me vou desencontrando. Parei de procurar. Gostava de parar de desejar também mas penso que isso demorará mais tempo e quando acontecer morri. Do jeito mais metafórico e simultaneamente triste possível. Comecei então a apostar na sorte e apenas intervenho quando surge a oportunidade. Mas nem sempre fui a mais sortuda e temo tantas vezes não ter feito a melhor escolha. Pois as pessoas já não se cruzam e os destinos, esses, estão todos mal cruzados.

C.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Se eu escrevesse seria assim #02


Paraste, antes mesmo de entrarmos no carro e disseste-me que não sabias ficar. Assim, sem reservas arremessaste o que sentias e eu que me defendesse como pudesse. «Eu nunca te pedi para ficares». Podia soar agressivo mas ambos sabíamos que era verdade - ninguém pediu, fomos ficando e de repente escolhes uma noite em que não era suposto acabarmos sozinhos e dizes que não sabes como. Simplifiquei, por essa luta já ter sido minha e entender o que querias dizer. O problema está em querermos sempre um motivo para ficar quando é tão mais fácil arranjar razões para simplesmente não partir. Não quis saber o que sentias ou achavas, quis apenas uma resposta curta a uma pergunta simples - «Neste momento é aqui que queres estar?» Amando ou não outras pessoas, tendo ou não outros passados, naquele momento era ali que querias estar? Disseste que sim e fiz-te ver, sem cliché, que então nada mais importava. Deste-me um abraço, sorriste deixando-me a sorrir e fizeste sinal para partirmos... ficando.
C. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Se eu escrevesse seria assim #01


Fui apenas por descargo de consciência. Por respeitar o que fomos um dia e saber que ainda poucos te conheciam como eu. Fui por não conseguir dizer não, mesma sabendo que nada queria. Entrei no carro e ao olhar-te pela primeira vez, em segundos passaram os anos em que não nos vimos.
«Abraça-me.»
Abracei-te, e em minutos passaram os anos em que existíamos. Juntos.
Não me demorei muito. Falamos do essencial, do que se passava, do que te faltava, do quanto te iria faltar. Da saudade que nasce e não morre. Da incapacidade de não deixar partir. Falamos de ti.
«É melhor ir-me embora. Espero que fiques bem»
E abrindo a porta, de costas voltadas, ouço o meu nome. Como é estranho ouvir-te chamar o meu nome.
«Sim?»
«Estás tão bonita.»
Sabes que não sou de meias palavras.
«Devias tê-lo dito quando eu não acreditava. Mesmo que até fosse mentira. (suspiro) Agora é tarde demais.»
Nem tão pouco te olhei. Quis que te custasse menos. Eu sei como doi perder a razão, ou outras coisas mais.
Continuei, saindo para a minha vida, deixando-te ficar na tua.
Não tenhas saudades minhas.
Jamais poderia ser de outra maneira.